Climatologista diz que incêndio em Monchique era “desastre anunciado”

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“A culpa não é do eucalipto. A culpa é, essencialmente, de uma paisagem desordenada", afirma o climatologista Carlos da Câmara

A paisagem mediterrânica, nomeadamente Portugal, tem que aprender a “conviver de uma maneira saudável” com os incêndios florestais, defendeu o climatologista Carlos da Câmara, considerando que o fogo em Monchique “era um desastre anunciado” devido ao acumular de mato.

O climatologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que fez parte da equipa de investigadores que realizou o estudo sobre as áreas de maior risco de incêndio para o Verão deste ano [divulgado em maio], disse que “nunca na vida iria imaginar que o facto de dizer que o concelho de Monchique tem mais probabilidade de arder que o Governo ou a sociedade pudesse atuar atempadamente”.

Na perspetiva do investigador responsável pela componente meteorológica, não é possível em “um mês ou dois meses ou mesmo até num ano corrigir problemas que são um acumular de décadas”.

Carlos da Câmara lembrou os grandes incêndios registados nos últimos anos em Monchique, nomeadamente em 1966, em 1990 e em 2003, para dizer que “a razão é sempre a mesma”, adiantando que o fogo este ano “era um desastre anunciado” devido à “enorme quantidade de biomassa”.

De acordo com o climatologista, é necessário apostar na prevenção e numa gestão da paisagem a longo prazo, “não deixando que a paisagem volte a ser como antes deste incêndio”.

“A culpa não é do eucalipto. A culpa é, essencialmente, de uma paisagem desordenada. Temos que tentar fazer com que a meteorologia tenha o impacto menor possível”, apontou o especialista, argumentando que a meteorologia não se pode controlar, apenas prever, já a paisagem florestal é possível ser controlada “a muito longo prazo, através de políticas continuadas de ordenamento”.

Enaltecendo o trabalho do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) nas previsões meteorológicas dos últimos dias, Carlos da Câmara indicou que a receita para que, do ponto de vista meteorológico, se possa ter um grande incêndio é a existência de “dias muito quentes, muitíssimos secos e, sobretudo, com ventos bastante intensos”, ressalvando que o fogo tem maior probabilidade de assumir grandes proporções em paisagens vulneráveis, tal como aconteceu em Monchique.

“Este fogo, com a proporção que atingiu, não era combatível, portanto, a única coisa que se pode é tentar preservar vidas, que até agora, felizmente, acho que se tem conseguido, mas a ideia que se consegue debelar um fogo destes só com aviões e com bombeiros não faz sentido nenhum”, afirmou o climatologista, advogando que, neste momento, há que “arcar com as consequências” e, “se as condições meteorológicas melhorarem, o fogo será combatível”.

Para o especialista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, as alterações climáticas “não são um bode expiatório” para a ocorrência de incêndios florestais, no entanto as alterações climáticas vão tornar mais frequentes a ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos que propiciam a ocorrência de fogos.

Além das alterações climáticas, Carlos da Câmara destacou o impacto das alterações económico sociais, já que “se compararmos Portugal, em particular o Algarve, há 30 anos, havia muitíssimo menos floresta, havia muitíssimo mais terrenos agrícolas, havia muito mais população no interior, que cuidava obviamente destes terrenos”.

“Não se pense que o fogo deve ficar ausente da paisagem. A paisagem mediterrânica tem que conviver com o fogo, sempre foi assim, portanto terá que haver sempre incêndios, que fazem parte da paisagem, e temos que aprender a conviver de uma maneira saudável com esses incêndios, deixando que haja incêndios, mas nunca com proporções que tornem a convivência com eles impossível”, afirmou o especialista, considerando que há conhecimento técnico-científico em Portugal para que se possa fazer “uma verdadeira reforma” da florestal.

Neste sentido, o climatologista recordou a reforma iniciada depois pelo atual Governo depois dos incêndios de 2017, que julga que se está a fazer “de uma forma bem feita”, mas cujos os resultados ainda não são visíveis devido ao curto tempo desde a sua implementação.

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